texto: roberta federico

Cheikh Anta Diop confirmado

8 de março de 2010

Finch III, Charles S. (2009). Cheikh Anta Diop confirmado. In: Afrocentricidade - Uma abordagem espistemológica inovadora. Nascimento, Elisa Larkin (org). São Paulo: Selo Negro

Cheikh Anta Diop é, ao lado de W.E.B. Du Bois, considerado o maior intelectual negro do século XX, pois seu trabalho serve como fundação para grande parte do que hoje é a produção acadêmica acerca do continente africano. Nasceu no Senegal em 1923 e faleceu em 1986 no mesmo país. Sua importância se deve a mudança de paradigmas que introduziu em termos de metodologias de pesquisa e também por sua obra ter ido além da academia, influenciando a maneira como pessoas de ascendência africana pensavam sobre si próprias. Diop recolocou o Egito no contexto da história africana e por conta deste trabalho foi atacado por inúmeros acadêmicos.

Diop foi criado numa atmosfera religiosa, pois era descendente de Cheikh Amadou Bamba (fundador do movimento islâmico Mouride). Em 1946 foi à Paris com a intenção de estudar Engenharia Aeronáutica, mas logo passou a ter interesse pela Física, disciplina onde obteve seu doutorado dez anos depois.

Nesse contexto, os movimentos pela independência africana assim como a necessidade de reavaliação e reconstrução do passado do continente, impulsionaram Diop a estudar mais sobre história, antropologia, sociologia, linguística e egiptologia. Sua contribuição mais duradoura foi no campo da egiptologia, onde está a pedra fundamental do seu trabalho.

Em 1822, Jean-François decifrou os hieróglifos egípcios e isso iniciou um intenso interesse por parte do Ocidente, por aquela região. Um fator inquietante era saber que o Egito era milhares de anos mais velho que a Grécia, e mesmo assim esta é que era considerada berço da civilização.

"Os próprios gregos davam prioridade ao Egito na construção da civilização, e os sábios gregos que foram estudar naquele país a partir de 610 a.C. incluíam Tales, Pitágoras, Sólon, Eudóxio, Anaximandro, Anaxímenes e Platão, para citar apenas alguns. Pitágoras, provavelmente o maior dos filósofos gregos e inventor da palavra filósofo ("amante da sabedoria"), passou 22 anos estudando no Egito no século VI a.C. Mas o Egito era um país africano e, no século XIX, o chauvinismo racial europeu estava chegando ao auge. A ideia de que uma nação africana pudesse realmente ter criado a civilização e a repassado aos gregos era simplesmente inadmissível. Após 1830, teve início uma campanha sistemática e abrangente de propaganda erudita buscando reforçar a ideia de que, embora o Egito se situasse na África, ele não pertencia à África. Por esse raciocínio, o Egito teria sido criado por uma raça invasora não-africana - provavelmente caucasóide -, originária da Ásia, que troxera a civilização para o vale do rio Nilo." (Finch III, p. 73)

No período de 1959 a 1967 Diop publicou: "Unidade Cultural da África", "África Negra Pré-Colonial" e "Anterioridade das civilizações negras". Em 1974 publicou "A origem africana da civilização: mito ou realidade?", que continha argumentos históricos, antropológicos e linguísticos. O auge de sua carreira acadêmica foi em 1980, quando publicou "Civilização ou barbárie: uma antropologia sem complacência".

As teses paradigmáticas de Cheikh Anta Diop

1. A humanidade começou na África;

¨(...) restos de seres humanos modernos com pelo menos 130 mil anos foram encontrados na Etiópia e no Quênia. Em nenhum outro lugar do mundo havia (ou há) fósseis humanos modernos com essa idade. Os mais antigos fósseis de Homo sapiens sapiens encontrados na Europa, denominados Homens de Grimaldi e associados à cultura "aurignaciana" não têm mais de quarenta mil anos." (Finch III, p.79)

2. O antigo Egito foi uma civilização negro-africana;

"O primeiro grego a escrever sobre esse tema, por volta de 450 a.C., foi Heródoto, que passou vários meses viajando por todo o país, de norte a sul. Segundo seu relato, os egípcios - da mesma forma que os colchianos e os etíopes - eram pessoas ´de pele negra e cabelos lanudos´ (...) Diop selou o argumento com o desenvolvimento e o uso do teste de dosagem de melanina, que mede o nível de melanina na pele dos cadáveres. Como os egípcios tinham o hábito de mumificar seus mortos, se eles fossem um povo ’melanizado’ (negro) as múmias guardariam um volume de produtos em decomposição da melanina suficiente para ser detectado pelo teste. Diop conseguiu obter pequenas amostras da pele de múmias num museu de Paris e, depois de submetê-las ao teste, descobriu que a concentração de melanina nelas era igual à dos africanos mais negros. Quando essa descoberta veio à tona, ele nunca mais pôde obter amostras de pele de múmias em nenhum museu do mundo."(Finch III, p. 85-86)

3. A origem dos povos da África Ocidental remonta ao vale do rio Nilo;

"Diop abordou o assunto de um ponto de vista diferente - o da linguagem. No livro ’Relação genética entre o egípcio faraônico e as línguas da África negra’, Diop (1977) detalhou sistematicamente e com perícias as correspondências morfológicas, fonéticas e sintáticas entre a antiga língua egípcia e o wolof, língua nacional do Senegal. Além disso, ele produziu um volcabulário comparativo com mais de três mil palavras nas duas línguas, realçando suas correspondências. Trata-se de um tour de force, e demoliu totalmente os argumentos que situavam a língua egípcia na família semítica (árabe, hebraico, aramaico). Trabalhos corroborativos semelhantes, acerca de outras línguas africanas, têm sido produzidos desde então por pesquisadores. (Finch III, p.88)

4. O mundo semita é uma fusão de imigrantes caucasóides ou arianos com negros autóctones já estabelecidos na Ásia Ocidental;

5. Houve dois berços do desenvolvimento humano nos tempos pré-históricos: o berço do sul e o berço do norte

6. A ciência, a medicina, a filosofia, a arquitetura, a engenharia e a arte civilizada surgiram primeiro no vale do rio Nilo;

7. Os reinos pré-coloniais da África Ocidental desenvolveram sistemas de governo e formas de organização social altamente sofisticados;

8. Há uma unidade cultural entre toda a África Negra.

Epílogo

"Esse não foi apenas o tema de um debate acadêmico educado, cheio de evasivas e subterfúgios, mas algo essencial para o projeto de longo prazo, absolutamente sério, de redescoberta e renascimento da África. Para Diop, os povos africanos poderiam ser comparados ao amnésico que perdeu totalmente a memória do passado, o que resultou no profundo senso de cisma psíquico, alienação e e falta de propósito que alimenta o mal-estar contemporâneo do espírito africano. ele acreditava firmemente que para ´conhecer o futuro é preciso olhar o passado´" (idem, p.89)




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